Entrevista - Ricardo Castro OSES

Você é bem aberto quanto à preferência de tocar em concertos, em relação a apresentações solo. O que lhe agrada tanto no meio orquestral? E o que o levou a ter essa preferência?
Depois de muitos anos tocando sozinho cheguei à conclusão que a prática musical como elemento de diálogo, não somente com a plateia, mas também no palco, permite um crescimento maior e consequentemente uma vida mais plena.
O que acha desse clima de competição que paira tanto em concursos, quanto nas próprias escolas de música, em meio aos alunos? Até onde a competição contribui para a evolução do músico?
A competição existe em qualquer ambiente animal e a música ou a arte não poderia se sobrepor a um instinto tão forte. Se vivida da maneira correta, participando com alegria do sucesso do outro, torna-se uma alavanca de crescimento pessoal e comunitário.
Onde se sente mais realizado no campo musical? O que o faz mais feliz?
Quando todos os elementos estão reunidos para a arte se propagar e transformar tanto aquele que a escuta quanto ao que a pratica. Isso implica em uma boa preparação de quem subirá no palco e boas condições de trabalho.
Acha que, quem possui um grande conhecimento e talento musical, erra ao buscar somente a glória, o reconhecimento, e não transmite o que sabe?
O mercado transformou as pessoas em seres egoístas, mas aqueles que experimentam o ato de transmitir o que sabe entendem que é o único processo que o faz avançar realmente.
Ensinar é um gesto poderoso e natural, entre gerações ou entre colegas. Sem isso nenhuma sociedade avança. Não sei porque os artistas teriam que ser diferentes.
Em entrevista, você já disse que os concursos contribuíram para um ritmo mais puxado de estudos, mas que não contribuíam para a linguagem artística em si. Como um músico deve buscar esse desenvolvimento artístico?
Por meio do crescimento interior, daquilo que você tem a dizer, não daquilo que os outros querem que você diga, como no caso dos concursos onde para se ganhar é necessário agradar um júri especifico ou uma demanda de mercado do momento.
E como você definiria essa linguagem artística? Digamos que a própria expressão do músico, a transmissão de uma mensagem, e não somente interpretar como está na partitura?
A música, apesar de ser uma linguagem universal, tem seus sotaques e particularidades culturais inerentes à origem dos compositores e seria um erro desconsiderar a existência desses estilos, somente seguindo as notas escritas numa partitura. O melhor exemplo pode ser nacional, com o samba. Nunca vi um escrito numa partitura que consiga transmitir toda a riqueza de seus ritmos.
Como avalia a cena, o mercado da música clássica brasileira atualmente?
Em crescimento constante desde a década de 90, mas ainda ancorado numa tradição ultrapassada e que funcionou no século passado nos países do hemisfério norte. Precisamos inovar, levando em consideração nossa realidade nacional e novos desafios. Quem sabe assim poderemos ser protagonistas no século XXI.
Você possui um vasto repertório, que abrande o clássico e o popular. Como divide seu tempo entre as duas vertentes? Toca outros instrumentos? O que mais gosta de tocar?
O popular é mais uma fonte de inspiração do que uma linguagem de trabalho. Gosto de aprender outros instrumentos, principalmente porque é difícil levar um piano para alguns lugares... mas não tenho preferencia de repertórios. Cada momento da nossa vida tem seu fundo musical adequado, como numa trilha sonora de um filme.
Você foi para a Europa bem jovem, já considerado prodígio, e com recursos próprios. Como foi o desafio de ir para um lugar completamente diferente de onde morava, e se desenvolver sem patrocínios ou bolsas?
O caminho foi muito difícil, principalmente levando em conta que não temos uma tradição musical com exemplos suficientes para abrir as portas simplesmente por ser brasileiro, muito pelo contrário. Quando cheguei na Europa ser brasileiro era sinônimo de simpatia, mas também de falta de compromisso, profissionalismo e até de caráter. Ou seja, para se sobressair ou conquistar respeito tinha que ser muito melhor do que a norma.
Ao mesmo tempo são os caminhos difíceis que formam o caráter e a força de vontade, coisas indispensáveis para construir uma vida de realizações sérias e comprometidas.
O que precisa ser feito no Brasil para que o ensino de excelência em música retenha os talentos que acabam indo para fora, e valorizando aqueles que não possuem oportunidades?
Ao criar o NEOJIBA, um dos principais argumentos foi o de oferecer para nossa juventude aqui no Brasil condições equivalentes às melhores condições existentes no exterior. O preço a pagar ao abandonar suas raízes para ser um melhor profissional em geral é alto demais. Somente poucos conseguem sobreviver à carência de elementos humanos fundamentais durante o crescimento da personalidade como as amizades, a família ou a linguagem afetiva. Muitos músicos quando saem muito cedo podem até tocar melhor, mas dificilmente conseguem virar grandes artistas, justamente por causa da falta de contato com esses elementos. Temos no Brasil total capacidade de oferecer a nossos jovens uma formação solida para que possam chegar ao topo, mas para isso é preciso investimento em equipamento e recursos humanos, como aconteceu nos EUA e agora acontece na Asia em larga escala.
Como surgiu a ideia de iniciar o Neojiba? O que mais te impressiona, te surpreende e te gratifica em um trabalho como esse?
Criar o NEOJIBA foi o desembocar de um longo processo, uma necessidade crescente de compartilhar e poder usar o que acumulei como conhecimento e experiência para melhorar as condições de outras pessoas. Ao tomar conhecimento do El Sistema em um país vizinho e semelhante ao nosso encontrei a melhor maneira de realizar o que sempre esperei fazer como músico.
O mais surpreendente é ver o efeito transformador da prática musical de excelência em quem a pratica e no seu entorno imediato. Temos aí uma ferramenta de desenvolvimento social fenomenal e que não pode ser exclusiva de alguns considerados mais talentosos.
Como anda a parceria com a Maria João Pires? Quais seus próximos projetos?
Desde que fundei o NEOJIBA minha agenda se complicou terrivelmente, comprometendo as apresentações na Europa, onde mantenho residência, mas com pouco tempo para projetos locais. Por isso já não tocamos juntos há mais de dois anos. Mesmo assim temos planos pela frente que só dependem agora de nossa agenda respectiva.
Alguma vez a inércia do poder público, ou a falta de interesse da iniciativa privada, o desmotivou ou fez desistir de algum projeto?
A pior inercia e falta de interesse sempre será a nossa própria. Quem acredita de verdade  em sua ideia, consegue convencer a todos. Afinal tanto o poder público quanto a iniciativa privada são feitas de pessoas de carne, osso, mente e coração. Basta encontrar a porta de entrada.
Qual momento de sua carreira considera como o auge, ou mais marcante?
Já pensei nisso muitas vezes e não consigo escolher entre um primeiro recital em Vitória da Conquista ou um concerto em Londres... Acho que tudo é interligado e importante. Seria como escolher em que momento específico seu coração bateu mais forte. Não acho que seja possível.
Qual sua motivação ou objetivo maior para exercer seu trabalho como professor?
Iniciei essa atividade muito cedo e sempre fui o maior beneficiado por ela. Alias tenho sido sempre o maior beneficiado por todo e qualquer ato de generosidade e não vejo porque não aproveitar de tamanho privilégio.
Qual o conselho que daria para os jovens músicos que desejam perseguir carreira profissional?
Que nunca abandonem a música, mesmo que não venha a ser uma profissão nos padrões esperados. Somente ter acesso à prática dessa linguagem já nos coloca em posição privilegiada para garantir uma vida melhor e mais rica.

Comentários